Especial HQ! com Allan Sieber
Ele mostra que ainda existe o politicamente incorreto (ainda bem!)
Allan Sieber mostra que, mesmo vivendo num mundo onde o Cigarrinho da Pan não existe mais (e se existisse, seria proibido de ser comido em lugares fechados), sua veia transgressora e criativa segue firme e forte, seja em quadrinhos (publicados em seu site e blog, além de jornais em todo país) ou em animações (como “Deus é Pai“, onde Ele e seu filho – Jesus, conhece? – vão a uma terapia familiar). Entre seus novos projetos, o gaúcho lança em setembro uma coletânea de quadrinhos (“É tudo mais ou menos verdade”) publicadas em diversas revistas. O A02 bate um papo com ele, numa conversa tão descontraída quanto seus desenhos. Manda bala, Sieber!
Almanaque02: Conta um pouco sobre seu livro que será lançado em setembro: “É tudo mais ou menos verdade”?
Allan Sieber: É um apanhado de reportagens em quadrinhos para a Trip, Playboy, colunas que saíam na Sexy e Trip , além de coisas autobiográficas. Será o livro pelo qual serei lembrado na posteridade. Mas dificilmente o MEC incluirá ele na lista de compras para as bibliotecas escolares. Uma pena, eu adoro estudantes do 1º Grau.
A02: O projeto de criar uma animação para o “Vida de Estagiário” ainda está de pé?
AS: Ainda existe, mas aguarda dinheiro. O que está rolando é a produção de um piloto com atores – um sitcom – embasado na série. Foi selecionado no programa FIC TV do Ministério da Cultura e será veiculado na TV Brasil. Estou escrevendo com meu amigo Arnaldo Branco e estamos tentando passar o mesmo espírito dos quadrinhos originais.
A02: Criar personagens como “The Mommys Boys” é uma forma bem humorada de tentar entender os gostos da juventude de hoje?
AS: Devo confessar que eu não entendo nada dos jovens de hoje em dia. Acho que pra começar eles deviam sair mais cedo da casa dos pais. Mas noto que está todo mundo muito bunda mole. Hoje em dia ser nerd e ficar o dia todo numa merda de Twitter parece agregar certo tipo de status a essas pobres criaturas. Bem… Não enchendo o meu saco nem me pedindo dinheiro emprestado, já está ótimo.
A02: Você ouve música enquanto cria?
AS: Ouço música o tempo inteiro. Atualmente ouço música clássica na maior
parte do tempo. Ou música de quem já morreu, pelo menos. Eles não nos decepcionam.
A02: Nos quadrinhos “Preto no Branco” muitas vezes você é colocado como personagem. Você se inspirou no Angeli (em “Angeli em Crise”) para criar as tiras?
AS: Não, na verdade me inspirei mais no Crumb e numas histórias que o Schiavon fazia da sua juventude desregrada e seus amigos malucos. E o Fabio Zimbres, claro. Mas sou fã de carteirinha do Angeli, acho ele um exemplo de integridade.
A02: Você sofreu algum processo por criar histórias como “Deus é Pai”?
AS: Acho que um idiota aqui do Rio tentou processar a MTV ou algo assim, mas estou por fora.
A02: Na sua opinião, o mundo está politicamente correto demais?
AS: Tem essa história de não poder fumar em lugares fechados e tudo mais. É chato. Porém sempre haverá um Sacha Baron Cohen para dar uma sacudida em tudo. As pessoas são muito chatas.
A02: Assim como a vida de estagiário, a vida de cartunista também tem seus “abacaxis”?
AS: Meu amigo, a vida de um cartunista - pelo menos a minha - é tipo o Havaí, uma imensa plantação de abacaxis.
A02: Ainda tem contato com seus parceiros (no bom sentido) em trabalhos anteriores, como o Paulo César Pereio e o pessoal do De Falla?
AS: O Pereio faz tempo que não vejo, provavelmente deve estar puto porque nunca terminei o “Pereio Eu Te Odeio”, documentário sobre ele. Não o culpo. O Flu – ex-baixista do Defalla - eu encontro sempre, ele mora aqui no Rio e faz trilhas para a série do Negão Bolaoito Talkshow que passa no Canal Brasil. O Edu K faz as vozes para essa série e falo com ele só por e-mail. Melhor assim (risos).
A02: Em todas as entrevistas, a gente pede para que indique algo que esteja lendo, ouvindo, vendo e/ou alguma obra que inspirou o entrevistado.
Lendo: ”Deus - um Delírio”, Richard Dawkins.
Ouvindo: “Preliminaires“, Iggy Pop.
Vendo: bundas.
“A Obra”: aquela história em que o Crumb atravessa a cidade numa noite chuvosa para comer uma mina idiota, mas gostosa.

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