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Entrevista02 com Michel Melamed – Última parte

Matéria postada por N.Man em 27/04/2009Nenhum Comentário

O artista faz suas considerações finais

Foto: DivulgaçãoConfiram a terceira e última parte da entrevista com Michel Melamed (não viu a primeira parte? Então clica aqui. Também não viu a segunda? Pô, tá bom, vai, clica aqui), que agora fala sobre o fato dele fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo, a idéia de criar sem um método, suas influências e indicações:

Almanaque02: Você acha que falta essa pluralidade que você tem em outros artistas?

Michel Melamed: Não, de jeito nenhum, ao contrário. Vejo que se fala muito disso no aspecto de que você é muito estimulado a ter desejos e uma linha de consumismo, você não pode ter as coisas etc. Isso eu vejo como um aspecto. O outro aspecto legal que você é muito estimulado a um monte de coisas e pode fazê-las. Pode desejar e pode realizar os seus desejos. Acho isso um traço positivo da pós-modernidade, da contemporaneidade, da profecia se cumpriu de cinco anos atrás. Hoje você grava um cd se você quer cantar. Quer escrever um livro? Vai numa máquina de xerox que sai até encapado. Sacou?

A02: Você tem a necessidade de se manifestar ou é um processo natural?

MM: Então, essas atividades são frutos primeiramente de desejos. Sou um artista e desejo manifestar essas linguagens, elas me encantam e eu vou lá e realizo meu desejo. Outra coisa, que o Ezra Pound disse que há três grupos de artistas: os “revolucionários”, que são os caras que inventam linguagem, experimentam linguagem, os limites da linguagem artística etc. Depois os “virtuosos”, que pegam essas linguagens e levam ao paroxismo, ao limite. Depois os “diluidores”, que já está no nome. Eu sempre me encantei pela idéia desses revolucionários, de alguém que fica brincando, experimentando com a linguagem, então

A02: Com você nunca teve essa idéia de separar o que vai fazer?

MM: Eu nunca me relacionei com essas atividades todas com virtuosismo. “Ah, vou ser ator”… e em anos eu querer tudo de ator. Não foi assim. Dentro dos conhecimentos que vou acumulando eu quero me manifestar, é mais importante pra mim que o virtuosismo como ator é a experimentação dos limites meus e os conhecimentos que eu tenho com a linguagem de ator. Isso é um aspecto.

A02: Então, o seu interesse primeiro não é por esse virtuosismo?

MM: Por outro lado, existe uma questão objetiva, eu faço varias atividades mesmo há vários anos, e eu fui estudando e fui aprendendo e existem técnicas e questões especificas de cada linguagem e eu faço mesmo. Eu sei escrever um roteiro de televisão, eu dirijo um programa de TV e trabalho como ator. São linguagens! Você vai e acaba se relacionando com elas e aprendendo e o interesse de fazer várias atividades. Não acho que é uma prerrogativa minha e não acho que é uma coisa de homem renascentista, acho extremamente contemporâneo, muita gente faz isso. Criar é sempre isso, você não tem métodos, você não está fazendo uma forma, criar bate com o desconhecido. Também não tem um lugar confortável. Um cara que, entre aspas, é só ator, não está mais confortável que alguém que vai ser ator e ser músico. Se você de fato vai fazer um mergulho vertical e louco, você não está reproduzindo alguma coisa que fez antes, você está se confrontando com o cagaço de algo novo, não tem método. Eu tô criando e se eu tô criando é original, porque eu nunca criei isso desse jeito. Então isso vale pra todo mundo em todas as circunstâncias. Acho que um monte de gente está fazendo varias atividades e é maravilhoso. Temos o Matheus Nachtergaele, o Selton Mello, Zé Celso, temos dezenas.

A02: Você acredita na idéia de processo de criação que muitos artistas afirmam ter?

MM: Não há processo. Não há método e eu não quero que haja método, Foto: Divulgaçãoporque isso é contraditório com a idéia de criação. Método é linha de produção industrial. “Então eu tenho uma idéia, sento, trabalho oito horas e em uma semana ta pronto”. Não tem isso. Eu não sei, nunca fiz isso antes, é a primeira vez que faço este trabalho na vida. Não tem método. Pode demorar um dia, posso virar três noites, posso demorar cinco anos pra fazer, pode ser engraçado, pode ser angustiante, posso achar que não rola, é impossível, posso achar que posso fazer tranquilamente.

A02: Qual são suas influências?

MM: Quatro artistas que são meus guias espirituais: Rubem Braga, ele quem diz que não existem coisas ordinárias no mundo, tudo é extraordinário. As crônicas do cara são do tipo: Uma flor nasceu. Você pode passar e nem ver a flor, pode só olha, mas esse cara faz uma página e meia de poesia conjecturando sobre a flor. Ele tá criando em cima da flor. Tem outro que é um fotografo espanhol chamado Chema Madoz, ele faz pequenos deslocamentos nas fotos dele que invertem tudo. É lindo. Outro cara é um diretor francês chamado Leo Carax, o trabalho do dele é brilhante. O cara tá o tempo todo revertendo as expectativas, criando cenas com uma linearidade para depois entortar, ele percebe o mundo de um jeito novo, ele exerce a criatividade. E o Walter Benjamin que é o pai disso tudo.

A02: Eu queria, pra finalizar, que você desse uma dica de musica, filme, teatro e livro. Como você trabalha com todas essas áreas, nada melhor que indicar algo delas.

MM: Ok, vamos por partes:
Um livro: O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano.
Um Filme:
Sangue Ruim (Bad Blood), de Leo Carax
Um disco:
Little Joy
Um programa de tv: Capitu, de Luis Fernando Carvalho.
Uma peça de Teatro: BR-3, de Antonio Araujo.

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